O discurso do orador das duas ocasiões, Gilberto Carreiro , traduz, com maestria, o sentimento da turma. Por ele podemos observar que sentimentos os moviam, que sonhos e que ideais os impeliam a caminhar olhando para cima e para frente, sabendo enfrentar as dificuldades e considerando mais o lado bom de todos os acontecimentos. Ele lembrou a base dos princípios e valores que os conduziram durante esses 50 anos e que os levaram a estar onde estão, colhendo os frutos de uma preciosa lavoura, semeada com sementes de grandíssima qualidade e cultivadas pelo bom exemplo das pessoas que os ajudaram: professores, funcionários e colegas do Colégio Agrícola Dona Sebastiana de Barros, em São Manuel, SP.
Eis o discurso:
Discurso proferido por Gilberto Carreiro, em 20/05/2017, sessão solene em comemoração aos cinquenta anos de formatura...Turma de 1967!!! Escola Agricola Dna. Sebastiana de Barros
Meus caros condiscípulos de 1967!
Cronos, o deus do tempo é o único que não dorme e não permite calotes.
E suas prestações se tornam mais amargas, dia após dia.
Uma hora é uma dor aqui, outra ali e por ai vai.
Noutro dia é a perna que não obedece à velocidade desejada.
Contudo, caminhar é preciso.
Hoje, não obstante a pressa, caminho a passos mais vagarosos do que em tempos pretéritos vividos neste solo sagrado e amado por todos nós.
O caminhar lento me permite olhar para lados e descobrir a beleza da primeira chuva embora o meu coração esteja sangrando de tristeza.
Ele me permite perceber que com ela, a primavera, renasce toda a flora numa profusão de cores capaz de encantar o mais pessimista dos homens embora a minha alma esteja chorando.
E com a flora em festa, os pássaros se alegram produzindo trinados sem igual e iniciam o seu labor de perenizar a natureza ainda que o meu corpo soluce de dor.
Flora e fauna se completam e se harmonizam para garantir a sobrevivência da Mãe Natureza não importa que ao redor estejamos na escuridão das esperanças...
Também descobri que ela não dá saltos e por isso se renova de tempos em tempos e eu tenho uma outra chance na vida.
Cada estação tem o seu papel. Para renascer é preciso morrer.
Entendi com o passar dos anos e com os fracassos acumulados o que significa o chamado tempo de maturação para tudo e para todos.
Só não aprendi o quão duro e doloroso é lidar com as emoções!
Ainda que sejam lembranças agradáveis eu continuo sendo o mesmo chorão dos tempos aqui vividos.
Às vezes, a emoção embota a razão.
E há motivos...
Passados cinquenta anos, estamos aqui para celebrar a vida.
O hoje se transformará em ontem e o amanhã é um horizonte inalcançável.
Mas Morfeu, o eterno deus dos sonhos, nos permite ludibriar Hades e Cronos.
E assim eu vos convido para um passeio no tempo.
Estamos na década de sessenta sob este mesmo teto, deambulando solertes por este campus lendário.
Por suas aléias floridas caminhamos aos pares ou solitariamente nas tardes de verão matraqueando sobre tudo e todos.
Aqui neste espaço demos asas à nossa imaginação e debulhamos as nossas emoções em vários momentos inesquecíveis...
Sob o olhar atento dos nossos mestres fomos crescendo, física, mental e intelectualmente...
Bebemos aqui das fontes mais límpidas e cristalinas jorradas pela voz e atitudes de grandes mestres...
Neste chão sagrado foram forjados o nosso caráter, o nosso destemor, a nossa solidariedade, o nosso amor ao próximo e a nossa cidadania.
Ali, no refeitório, sob a batuta de Chororó, José Gonçalves, Antônio Beltrami e outros aprendemos a dividir o pouco e a economizar para não faltar no amanhã...
No Grêmio 21 de Setembro aprendemos que democracia não é apenas uma palavra grega bonita de se dizer. Democracia pressupõe responsabilidades, pressupõe acatar os deveres e respeitar os direitos. Implica em proteger o mais fraco do mais forte.
Da lavanderia, sob olhar atento e cuidadoso de dona Salaro aprendemos que roupa suja se lava em casa e que o hábito faz sim o monge.
Lá na horta do professor Hermínio Di Sanctis aprendemos que é preciso plantar e suar para conquistar alguma coisa...
Na alvenaria do professor Rosário Calviti aprendemos que somente com um alicerce forte venceremos as tormentas da vida.
Marcelo Mantovani nos ensinou que assim como os metais alguns homens são quebradiços e outros quase indestrutíveis... E ele, por experiência própria, sabia que a fraqueza destrói a alma dos homens, e por isso queria fossemos à semelhança dos últimos.
Hélio Silva nos encantava com o malabarismo dos seus números mágicos, números esses que me derrubaram muitas vezes. Mas advertia que não se muda o mundo num passe de mágica.
Matemática era o meu maior algoz. Sobrevivi graças a alguns amigos que não se cansaram ao me ensinar o caminho das pedras.
Ludibriar Cronos, o implacável, é relembrar a entrada triunfal do professor Lino Saglietti, numa manhã de primavera, trazendo, à tiracolo, um senhor de baixa estatura, vestido todo de branco e apoiado numa bengala, o magistral Júlio Cesar de Melo e Souza, internacionalmente conhecido como Malba Tahan, o bruxo dos números e das lendas orientais...
Enganar Cronos, o terrível, é reviver as emoções do Professor Oswaldo Gimenes, historiando, ao seu modo, as guerras púnicas, as batalhas do Itororó e a Revolução Constitucionalista onde tombaram milhares de paulistas e entre eles Mario Martins de Almeida, filho desta terra que me viu nascer e acolheu com carinhos todos os que para cá vieram.
Vencer Cronos, o bárbaro, é acompanhar o devaneio pedagógico do Professor Alceu Rosolino ao nos ensinar como é perfeita a mecânica do corpo humano...
Calar Cronos, o ceifador do tempo, é ouvir a fala mansa e meiga da Professora Gertrudes descrevendo sobre a generosidade da terra em nos prover dos alimentos básicos.
Cronos, o ingrato, não nos impede de demonstrar a nossa gratidão a todos os homens e mulheres que aqui, neste torrão místico, nos transformaram, de adolescentes rebeldes e sem causas, em homens de bem.
Uma figura sempre esteve presente nas minhas reflexões sobre o que fui e sou.
Ela tomava conta do local que eu mais frequentava e onde eu pude conhecer um pouco do que o Homem criou desde os tempos imemorais.
Falo de dona Zilda Gabriel Salaro, nossa bibliotecária, sempre zelosa e prestativa.
Ela e o professor Lino são responsáveis pela formação que tenho e me orgulho.
Sou antes de tudo um professor.
Porque me espelhei em cada um dos professores que tive nesta sagrada Escola.
Quem não se lembra da meiguice das Professoras Marita Massareli Silva, Margarida Santalúcia e Elda Birraque Faraco tentando abrir os nossos olhos e ouvidos rebeldes para um mundo desconhecido.
Eles e Elas não nos ensinaram o óbvio. Foram muito além. Eles nos ensinaram a pensar.
Eles e Elas nos deram lições de conduta, de respeito, ética e de solidariedade.
Solidariedade anônima como a dos professores José Carlos, Balduíno Flamínio e Lauro Liberatti que, após a morte de meu saudoso pai, Francisco Miranda, faziam a coleta entre os seus pares para comprarem o meu material escolar todos os anos. Não me faltaram nem cadernos e nem livros. Só vim a saber disso muitos anos depois.
Solidário como professor Dotto e o professor Hermínio Di Sanctis que bancaram, anonimamente, uma parte dos meus estudos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba.
Quem não se lembra do Inspetor Tobias e Gentil, dos vigilantes Tutu, Bertozzo, todos rigorosos, mas cúmplices das nossas inocentes peraltices.
Meus caros condiscípulos!!!
Não dá falar da história desta casa sem relembrarmos do Jornal, com nome pretencioso, mas verdadeiro que criamos e sustentamos com muito zelo e ardor: O Gigante da Colina.
Foi nele que arrisquei os meus primeiros rascunhos e por ele me empolguei e fiz das letras uma profissão de fé.
Também não posso esquecer do TECA, nosso teatro amador, que revelou alguns atores portentosos e outros nem tanto como eu.
Não dá para rever o nosso passado sem recordar do professor Surita e a nossa fanfarra que brilhou junto às mais renomadas do estado de São Paulo.
O Grande Sebastião Santos junto com o Realino e o Benedito Buzina, abrilhantavam e comandavam os nossos portentosos desfiles...
O saudoso e inesquecível Professor Valter Carrer foi o maestro mor desta instituição na construção sólida da nossa cidadania. Ele nos levou à inúmeras excursões que ampliaram os nossos horizontes, Ilha Solteira, Pirassununga, Escola de Agronomia de Piracicaba.
O professor Moratelli nos advertia que não bastava um corpo perfeito, era preciso ter um cérebro arguto e paciência de monge tibetano principalmente quando a situação exigisse punhos rápidos.
Meus caros colegas de 1967!!
Com dor no coração, mas reverente preciso falar de saudades, embora guarde no coração os momentos de convivência e alegria.
Com certeza, Acyr Resende de Souza e Silva, Antônio da Silva Pinto, Celso Sávio e outros estão nos vendo lá do andar de cima e vibrando com esta solenidade singela.
E não querem lágrimas. Querem o nosso afeto e a nossa saudade.
Meus caros amigos!!
Por alguns anos, aqui plantamos árvores e durante toda a vida estamos colhendo os seus frutos...
Assim como essa terra nos foi generosa, precisamos cuidar para que a história não ofusque o passado glorioso desta casa de ensino e dos homens que a fizeram gigante e uma lenda.
A lenda do gigante da Colina.
Aqui chegamos ainda imberbes e saímos homens feitos forjados pelos melhores alquimistas da Terra.
O modelo pedagógico consagrado por esta casa de ensino não existe mais.
Os mestres que aqui ensinaram repetiam à exaustão que somos escravos permanentes das nossas escolhas...
Somos o resultado fiel do nosso suor, das nossas inventivas, das nossas lágrimas e também dos nossos sonhos.
Companheiros da Jornada 1967!
Estamos aqui celebrando a vida e reverenciando o passado.
O presente é um momento fugaz.
O futuro é um ponto posto no horizonte.
Resta de concreto o passado com suas eternas lições.
Nem sempre tivemos a vida que sonhamos.
Tivemos alegrias e tristezas. Por obra do Divino, mais alegrias.
Vitórias e derrotas.
As vitórias nos trouxeram até aqui.
Conquistas e fracassos.
As conquistas coroaram os nossos esforços.
Grandes amigos e inimigos gratuitos.
Os amigos foram as nossas fortalezas e amparo nas lides fracassadas.
Surpresas e decepções.
As surpresas nos animaram a seguir em frente.
Abraços que confortaram e tapas que machucaram.
Os abraços nos aqueceram nos rigores dos invernos
Doces lembranças e amargas lágrimas.
As lembranças nos fizeram rir das nossas fraquezas.
Sonoros risos e choros silenciosos.
O riso nos encheu a alma de esperança.
Primavera colorida e negro inverno.
As flores encantaram os nossos caminhos.
Alamedas ensolaradas e frios abismos.
O sol nos convidava a continuar a luta.
Nobres renúncias e egoísmos pobres.
Aprendemos que renunciar exige mais coragem do que continuar.
Aqui e ali fomos colhendo nossos saborosos frutos e dolorosos espinhos.
E ambos nos deram a dimensão exata do que fomos e somos.
Seres com erros e acertos.
Segundo Ortega e Gasset, fomos moldados às nossas circunstâncias
Imperfeitos na modelagem, porém, com traços de boa matéria-prima.
É verdade que colecionamos algumas cicatrizes permanentes.
Cicatrizes que ostentamos como se medalhas fossem.
Fomos e ainda somos imperfeitos.
O que nos consola é que tentamos acertar.
Afinal, cada tropeço é um aprendizado.
Errar não é assim tão ruim.
Permanecer no erro é fatal.
Mas por sermos humanos erraremos ainda muitas vezes.
O importante é que cada um saiba que amar não é uma palavra vazia.
Às vezes, ele, o amor, nos cobra pequenos sacrifícios.
Que graça teria a vida se tudo caminhasse certinho, sem nenhum desvio de rota?
Apenas não podemos deixar que o mundo vire de cabeça para baixo.
E isso começa na família.
E se aprimora numa boa escola.
Meus caros agricolinos de 1967 e dos anos futuros
Acho somos os últimos estudantes e aprendizes de fato e os nossos professores foram também os últimos mestres dignos de assim serem chamados.
Mestres que nos ensinaram o valor da família e da solidariedade...
Nos ensinaram antes de tudo a pensar.
Eram Mestres que castigavam de forma pedagógica e ninguém ficou traumatizado por isso.
O professor Sartori e seu lápis vermelho me deram quatro zeros.
Mesmo assim, o generoso mestre oferecia a chance de me redimir. Era apenas questão de milímetros. E vim perceber, mais tarde, que esses mesmos milímetros se transformam em questão de vida ou morte.
Temos, com esta casa, com os seus valorosos docentes e seus dirigentes de outrora, sim, uma dívida de gratidão impagável e jamais nos esqueceremos dos dias longínquos e profícuos que aqui vivemos.
Está no nosso DNA a riqueza desta casa.
Caros e lendários irmãos de 1967.
O poetinha de Alegrete, Mario Quintana, dizia que era preciso domesticar as palavras para que elas digam exatamente o que queremos dizer.
Espero que essas singelas palavras tenham dito o que o meu coração traduz como Amizade, fraternidade e gratidão.
Foi uma honra ter sido parceiro de vocês naquele distante 1967.
Podem contar aos seus netos que um gigante os transformou em seres humanos incríveis.
E esse gigante tem nome: Gigante da Colina de São Manuel do Paraíso.
Podem estufar o peito, se ainda tiverem forças, para dizer: Somos herdeiros de uma lenda chamada Colégio Agrícola Estadual Dona Sebastiana Leopoldina de Barros.
Somos aliás os lendários agricolinos desta casa maestra.
Como dizia o grande Carlitos, personagem do extraordinário Charlie Chaplin: “Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”.
Nós nos encontramos aqui no início da década de sessenta.
Hoje estamos mais uma vez reunidos celebrando uma amizade cinquentenária com alegria e saudade.
Meus caros amigos do distante 1967!!
Sorriam, pois somos hoje uma lenda neste solo sagrado.
Senhoras e senhores, ninguém teve mais amor por esta casa do que esses velhinhos que aqui estão comemorando a vida. Celebrando a nossa história...
As lendas não morrem, renascem a cada momento em que os homens se reúnem para celebrar a vida.
Alguns de nós choramos quando deixamos a nossa casa pela primeira vez; outros choraram quando deixaram esta casa há 50 anos.
Hoje é dia de sorrir, estamos cinquenta anos mais experientes
Estamos celebrando a nossa vida e a história de uma instituição.
Curvo-me ao sagrado que há em cada um daqueles senhores e senhoras que aqui nos forjaram para a vida.
Curvo-me à proverbial sabedoria do Professor Orlando Antônio Jorge que nos ensinou que para ter vida longa é preciso amar todos os momentos vividos.
Eles foram pessoas que mudaram as nossas vidas. Obrigado por isso e por outras coisas mais.
Salve 1967!!!
Viva 2017!!
*" Improviso" proferido na solenidade em comemoração aos 50 anos de formatura dos Técnicos Agrícolas do Colégio Técnico Agrícola Dona Sebastiana de Barros- 20/05/20117